Uma releitura da Grande Comissão a Partir de Mateus 28
Quando falamos sobre a Grande Comissão, normalmente começamos a leitura em Mateus 28:18: “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: — Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.”
E, então, seguimos para a ordem de fazer discípulos de todas as nações.
Mas, se começarmos a ler o capítulo desde o primeiro versículo, descobrimos que a Grande Comissão não foi entregue em um cenário neutro. Ela surgiu em meio a medo, interesses religiosos, influência política, dinheiro, mentira e disputa por versões dos acontecimentos.
Enquanto os líderes religiosos articulavam uma narrativa para explicar o túmulo vazio, Jesus reunia os seus discípulos para lhes entregar uma missão.
Enquanto alguns procuravam controlar a história, Jesus enviava seus discípulos para anunciar a verdade que transforma a história.
Essa leitura é especialmente necessária em nossos dias. Vivemos em uma sociedade marcada por polarização, disputas de poder, notícias falsas e líderes que tentam conquistar a lealdade das pessoas.
A igreja está no meio dessa sociedade. Por isso, precisamos perguntar: a quem estamos ouvindo? Quem está definindo nossas prioridades? Em torno de qual causa estamos reunindo os discípulos de Jesus?
O REINO DE JESUS NÃO NASCEU DAS AGENDAS DE PODER
Os discípulos de Jesus viviam debaixo da dominação romana. A expectativa de libertação fazia parte do ambiente em que viviam. Havia esperança de que Deus restaurasse Israel, e essa esperança muitas vezes estava associada a poder, governo e mudança política.
Mesmo depois da ressurreição, os discípulos ainda perguntaram a Jesus: “Senhor, será este o tempo em que o senhor irá restaurar o reino a Israel?” Atos 1:6
Havia também, entre eles, a preocupação com posição e reconhecimento. Em Mateus 20:20–28, aparece o pedido para que dois dos discípulos se assentassem um à direita e outro à esquerda de Jesus em seu Reino.
Mas Jesus lhes apresentou outra maneira de exercer autoridade: “Quem quiser tornar-se grande entre vocês, que seja esse o que os sirva.” Mateus 20:26
Enquanto o mundo procurava grandeza por meio da posição, Jesus ensinava grandeza por meio do serviço.
Enquanto muitos esperavam um Messias que tomasse o poder pela força, Jesus caminhava para a cruz.
E, na noite anterior à sua morte, ele se levantou da mesa, tomou uma toalha e lavou os pés dos discípulos. O Senhor de toda a terra se ajoelhou para servir.
Jesus não era indiferente ao que acontecia na sociedade. Ele denunciou a hipocrisia, confrontou a injustiça, acolheu os desprezados e anunciou boas-novas aos pobres. Sua mensagem tinha consequências públicas. Mas Ele não se deixou capturar pelas disputas de poder, nem transformou sua missão em um projeto de conquista política.
Seu Reino confrontava os valores do mundo, mas não se estabeleceria pelos métodos do mundo.
Essa é uma palavra para nós. Os cristãos vivem na sociedade, têm responsabilidades como cidadãos, votam, participam do debate público e até exercem funções políticas. Mas nenhuma dessas atividades pode assumir o lugar do Reino de Deus.
A igreja serve à sociedade com maior fidelidade quando permanece debaixo do senhorio de Jesus.
JESUS CHAMA OS DISCÍPULOS PARA ENCONTRÁ-LO
No primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ao túmulo. Elas buscavam Jesus, aquele que havia sido crucificado.
Ali, foram surpreendidas por um grande terremoto. Um anjo do Senhor desceu, removeu a pedra e se assentou sobre ela. Os guardas tremeram de medo.
Então o anjo disse às mulheres que Jesus havia ressuscitado e lhes deu uma ordem: que fossem depressa anunciar aos discípulos que ele ia adiante deles para a Galileia. Ali eles o veriam.
As mulheres saíram apressadamente, tomadas de medo e grande alegria. No caminho, o próprio Jesus veio ao encontro delas. Elas se aproximaram, abraçaram seus pés e o adoraram.
E Jesus repetiu a direção: “Não tenham medo! Vão dizer aos meus irmãos que se dirijam à Galileia e lá eles me verão.” Mateus 28:1–10
O anjo havia dito: “Lá vocês o verão.” O próprio Jesus confirma: “Lá eles me verão.”
A Galileia não era um destino escolhido pelos discípulos. Era o lugar indicado pelo Senhor. Antes mesmo de sua morte, Jesus lhes havia dito que, depois de ressuscitar, iria adiante deles para a Galileia. Ele estava cumprindo sua palavra. (Mateus 26:32.)
Não sabemos se o anjo recebeu essa incumbência diretamente do Pai ou do Filho. O texto não explica. Mas sabemos o que o anjo anunciou e o que Jesus confirmou: os discípulos deveriam ir ao encontro do seu Senhor ressuscitado.
E aqui está uma aplicação para nós: em um tempo de muitas vozes, Jesus ainda chama seus discípulos a ouvir sua voz e seguir sua direção.
Enquanto Jerusalém se tornaria cenário de uma articulação para encobrir o que havia acontecido, Jesus marcava um encontro com os seus.
O texto não afirma diretamente que a razão da ida à Galileia era escapar da efervescência política de Jerusalém. Mas o contraste entre as cenas nos permite refletir: os discípulos não precisavam deixar que a conspiração dos líderes religiosos determinasse a sua próxima atitude. Eles tinham uma direção recebida de Jesus.
A distância entre Jerusalém e a Galileia envolvia uma jornada considerável (140 quilômetros para ir e 140 para voltar). Mas, mais importante do que medir o caminho, é perceber o propósito: eles iriam encontrar Jesus.
Também hoje o Senhor está chamando sua igreja a se afastar do ruído por tempo suficiente para ouvir novamente a sua voz.
Há momentos em que precisamos sair da pressa, do medo, da indignação permanente e das disputas que nos cercam. Precisamos voltar ao lugar da adoração, do encontro e da sanidade.
Antes de recebermos uma missão para o mundo, precisamos reencontrar aquele que nos envia ao mundo.
E há uma palavra preciosa no modo como Jesus se refere aos discípulos. Depois de terem falhado e fugido, ele os chama de “meus irmãos”.
O Ressuscitado não os chama primeiramente para expor a covardia deles, mas para reencontrá-los. A missão nasce da graça daquele que restaura seus discípulos.
EM JERUSALÉM, UMA NARRATIVA ERA COMPRADA
Enquanto as mulheres iam levar a notícia aos discípulos, alguns guardas foram à cidade e contaram aos principais sacerdotes o que havia acontecido.
Os sacerdotes se reuniram com os anciãos e decidiram dar uma grande soma de dinheiro aos soldados. Em troca, deveriam dizer que os discípulos haviam roubado o corpo de Jesus enquanto eles dormiam.
Se a notícia chegasse ao governador, os líderes prometeram interceder para que os soldados não tivessem problemas. Mateus 28:11–15
O texto nos mostra uma sequência:
• Os guardas relataram os acontecimentos.
• Os líderes religiosos se reuniram.
• Dinheiro foi oferecido e pago.
• Uma versão falsa foi construída – narrativa.
• Proteção foi prometida.
• A história se espalhou.
Mateus diz que essa versão circulava entre os judeus até o tempo em que ele escreveu seu Evangelho.
Possivelmente os guardas ouviram toda a conversa do anjo com as mulheres. Mateus registra o medo deles e, depois, o que contaram aos sacerdotes. O suborno foi oferecido aos guardas e se chegasse ao governador, seria um problema que eles também resolveriam.
O quadro é muito atual. Quantas vezes a mentira é repetida até parecer verdade? Quantas vezes interesses são protegidos por acordos, dinheiro e influência? Quantas vezes líderes religiosos são tentados a usar sua posição para sustentar uma causa que já não serve à verdade?
Quando a preservação do poder se torna mais importante do que a verdade, a fé pode ser usada para proteger interesses.
E isso pode acontecer em qualquer campo ideológico. Nenhum grupo político está imune à corrupção, à manipulação ou à tentação de usar Deus para conquistar seguidores.
A igreja precisa ter discernimento para não trocar o Evangelho por narrativas que exigem lealdade cega.
A mentira não se torna verdade porque foi repetida por muitos. E uma causa não se torna santa simplesmente porque alguém a apresenta em nome de Deus.
NA GALILEIA, JESUS DEVOLVE AOS DISCÍPULOS SUA VERDADEIRA AGENDA
Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes havia indicado. Quando o viram, o adoraram; alguns, porém, duvidaram.
É impressionante perceber que Jesus entrega sua missão a pessoas reais: homens que o adoram, mas entre os quais ainda há dúvidas. A segurança da missão não está na força perfeita dos discípulos, mas na autoridade e na presença daquele que os envia. Mateus 28:16–20
Então Jesus declara: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.” Antes de dizer o que os discípulos deveriam fazer, Jesus afirma quem Ele é e que autoridade possui.
Os governadores tinham autoridade limitada.
Os sacerdotes exerciam influência sobre o povo.
Os soldados representavam a força de Roma.
Mas Jesus, o Crucificado e Ressuscitado, declara que recebeu toda a autoridade no céu e na terra. Isso muda tudo!
A igreja não precisa procurar um salvador entre os governantes. Já temos um Salvador. Não precisamos atribuir a um líder humano a esperança que pertence somente a Cristo.
Podemos avaliar governantes, apoiar propostas e exercer nossa cidadania. Mas nossa confiança definitiva está no Senhor ressuscitado.
E o que Jesus faz com toda essa autoridade? Ele envia seus discípulos a fazer discípulos de todas as nações, batizando-os e ensinando-os a guardar tudo o que ele ordenou. E promete estar com eles todos os dias, até o fim dos tempos. (Mateus 28:19–20.)
Perceba a agenda de Jesus: Fazer discípulos
A missão da igreja é conduzir pessoas a Jesus e ajudá-las a viver como seus seguidores.
Discípulos aprendem a confiar nele, obedecer à sua Palavra, amar como ele amou e servir como ele serviu.
Alcançar todas as nações
O Evangelho não pertence a um povo, partido, classe social ou ideologia. A missão de Jesus ultrapassa fronteiras.
Quando a igreja se torna conhecida apenas por uma posição política, corre o risco de erguer barreiras diante de pessoas que também precisam ouvir sobre o amor de Deus.
Batizar e ensinar a obedecer
Jesus não nos enviou para apenas reunir admiradores ou conquistar apoiadores. Ele nos enviou para formar discípulos comprometidos com tudo o que ele ensinou.
Isso inclui a verdade, a justiça, a misericórdia, a reconciliação, a santidade, o cuidado com o próximo e o amor até mesmo aos inimigos.
Caminhar na presença de Jesus
A Grande Comissão termina com uma promessa: Jesus está conosco.
Nossa segurança não está no acesso aos poderosos. Está na presença daquele que tem toda a autoridade.
DE VOLTA A JERUSALÉM: ESPERAR, RECEBER PODER E TESTEMUNHAR
Ao continuarmos a leitura no Evangelho de Lucas e no livro de Atos, encontramos os discípulos novamente em Jerusalém.
Os Evangelhos relatam encontros com Jesus ressuscitado em lugares diferentes. Mateus destaca o encontro na Galileia; Lucas e João também narram encontros em Jerusalém. A Bíblia não apresenta uma sequência completa de todas essas viagens, por isso não precisamos afirmar uma cronologia detalhada para compreender a mensagem.
O que sabemos é que Jesus ordenou aos discípulos que permanecessem na cidade até serem revestidos de poder do alto. (Lucas 24:49; Atos 1:4–8.)
Eles voltaram para Jerusalém, onde permaneceram reunidos em oração. Que contraste!
Em Jerusalém havia uma versão falsa circulando sobre a ressurreição. Havia autoridades que haviam se oposto a Jesus. Havia medo e havia pressões.
Mas os discípulos não receberam de Jesus a ordem de organizar um motim, combater seus adversários pela violência ou dedicar seus dias a uma disputa pelo poder.
Receberam a ordem de esperar pelo Espírito Santo.
A espera não significava indiferença. Eles estavam sendo preparados para testemunhar.
E, quando o Espírito Santo veio sobre eles, Pedro se levantou e anunciou Jesus crucificado e ressuscitado. Naquele dia, cerca de três mil pessoas receberam a palavra e foram batizadas. (Atos 2:41.)
A igreja nasceu anunciando Cristo. Nasceu perseverando na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações.
Nasceu cuidando de pessoas, repartindo com os necessitados e testemunhando publicamente a ressurreição.
E enfrentou oposição. Em Atos, os discípulos responderam a acusações, anunciaram a verdade diante de autoridades e, em certos momentos, recorreram aos seus direitos. Portanto, eles não se calaram diante da sociedade. Mas sua resposta foi guiada pela obediência a Cristo e pelo testemunho do Evangelho.
Eles não deixaram que os adversários escolhessem sua missão.
A igreja cresceu. Atos menciona cerca de cinco mil homens em Atos 4:4 e, mais adiante, fala de muitos milhares de judeus que haviam crido, em Atos 21:20. Os historiadores relatam, que anos depois, já eram cerca de 25 mil. A Palavra se espalhou e muitos se tornaram discípulos.
Como Jesus havia ensinado, o Reino crescia como o grão de mostarda e agia como o fermento na massa.
Não por causa da proteção de um partido ou da força de um exército, mas pela ação de Deus e pelo testemunho de pessoas cheias do Espírito Santo.
QUANDO A IGREJA SE APROXIMA DO PODER, PRECISA GUARDAR O CORAÇÃO
Ao longo da história, a relação entre a igreja e o poder político trouxe oportunidades, mas também perigos.
No início do século IV, sob Constantino, a condição dos cristãos no Império Romano mudou profundamente. Em 313, a política associada ao chamado Édito de Milão reconheceu a liberdade de culto, dando fim a um período de perseguições oficiais. Mais tarde, no fim daquele século, o cristianismo passou a receber status oficial no Império.
O fim da perseguição foi um alívio real para muitos cristãos. Ao mesmo tempo, a crescente proximidade entre igreja e governo levantou questões que continuam atuais:
• O que acontece quando a igreja recebe privilégios do poder?
• Ela continua livre para anunciar a verdade?
• Os líderes continuam servindo ou passam a disputar posições?
• A fidelidade a Cristo continua sendo maior do que a fidelidade aos governantes?
A história desses séculos é complexa. Não seria justo dizer que Constantino, sozinho, criou todos os problemas posteriores da igreja, nem resumir mais de mil anos de história cristã como um período inteiramente de trevas. Contudo, houve abusos e alianças danosas, que favoreceram mais de mil anos do que vai ser comumente chamado de “idade das trevas”. Mesmo neste tempo o Senhor ainda preservou as Escrituras, o serviço, alguma reflexão teológica, a missão e testemunho fiel por parte de irmãos e grupos.
Mesmo assim, a lição permanece: Toda vez que a igreja se aproxima do poder, precisa vigiar para que o poder não ocupe o lugar de Cristo em seu coração.
O problema não é a presença de cristãos na vida pública. Precisamos de pessoas íntegras em todos os espaços da sociedade. O perigo surge quando a igreja passa a servir aos interesses do poder e deixa que sua voz seja controlada por eles.
UMA PALAVRA À IGREJA BRASILEIRA
Precisamos amar e servir ao Brasil. Devemos orar pelas autoridades, buscar a justiça, cuidar dos vulneráveis e exercer nossa cidadania com responsabilidade.
Mas também precisamos reconhecer o perigo de uma igreja dividida e mobilizada principalmente por paixões políticas.
Isso pode acontecer tanto à direita quanto à esquerda.
Quando um candidato é tratado como salvador da nação, algo está fora do lugar.
Quando um partido se torna mais importante do que a comunhão entre irmãos, algo está fora do lugar.
Quando compartilhamos mentiras porque elas favorecem nosso lado, algo está fora do lugar.
Quando líderes usam o púlpito para exigir que todos sigam sua preferência política, algo está fora do lugar.
Quando pessoas são incentivadas a defender a violência, a destruição ou o que é injustificável em nome de uma causa, algo está profundamente fora do lugar.
E quando gastamos mais energia fazendo seguidores de projetos humanos do que fazendo discípulos de Jesus, precisamos voltar à Galileia — no sentido de reencontrar o Senhor e ouvir novamente a sua comissão.
Isso não significa que todos os cristãos devam pensar da mesma maneira sobre política. Também não significa que a igreja deva se omitir diante da injustiça.
Significa que nossas convicções públicas precisam ser examinadas à luz do caráter de Cristo.
Podemos discordar sem odiar.
Podemos participar sem idolatrar.
Podemos defender a justiça sem abandonar a misericórdia.
Podemos amar nosso país sem transformar qualquer governante em messias.
A igreja de Jesus não é massa de manobra. A igreja é povo de Deus, corpo de Cristo e comunidade enviada ao mundo pelo poder do Espírito Santo.
